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Mandioca, o carro chefe da economia de Crisópolis

A área onde está erguida Crisópolis, integrava o município de Itapicuru e seu povoamento iniciou-se na segunda metade do século XIX, por fazendeiros que ali se estabeleceram, formando as fazendas Dendê de Cima e Dendê de Baixo. Com a chegada de Antônio Conselheiro na década de 1880, formou-se o povoado de Bom Jesus, onde o profeta do sertão Antônio Conselheiro construiu uma igreja e um cruzeiro concluídos em 1892. Município criado com o nome de Vila Rica, e com o território do distrito de Bom Jesus, desmembrado de Itapicuru, por Lei Estadual de 26.08.1898. Foi extinto em 1901, e anexado a Itapicuru. Restaurado por Lei Estadual de 14.05.1918, mas com sede transferida para a povoação de Cajueiro (atual sede de Acajutiba). O município foi novamente extinto e anexado ao de Esplanada. Foi restabelecido, com território desmembrado de Esplanada por Decreto Estadual de 01.06.1933. Outra vez extinto, em 1931, e mais uma vez incorporado a Itapicuru. Restaurado, definitivamente, por Lei Estadual de 12.03.1962, com o território do distrito de Crisópolis, desmembrado de Itapicuru. Atualmente o município tem como distritos importantes, o Buril e o Pinto. 



A cultura da mandioca exerce importante papel no cenário agrícola do município, tanto para a alimentação humana e animal, quanto como principal fonte geradora de emprego e de renda.

Dentre os principais subprodutos da mandioca, destacam-se a farinha que é o produto motor da renda municipal e a fécula que é utilizada para a produção de beijus, bolos, cuscuz e diversos outros tipos de alimentos.

O processamento das raízes acontece nas chamadas Casas de Farinha, estruturas produtivas representantes do método tradicional, ou seja, baseado na mão-de-obra familiar. Em decorrência da modernização e a necessidade do aumento na capacidade de produção foi surgindo o processamento por parte das farinheiras, consideradas agroindústrias, com estrutura de trabalho mais profissional, utilizando-se de ferramentas modernas, mecanizadas.

A farinha tem uso essencialmente alimentar e, além dos diversos tipos regionais, que não modificam as características originais do produto, encontram-se duas formas: a farinha não temperada, que se destina à alimentação básica e é consumida principalmente nas classes de renda baixa da população; e a farinha temperada (farofa), de mercado mais restrito, mas de maior valor agregado.

Dessa forma, produzir farinha no município deixou de ser apenas a manutenção de uma cultura centenária para se transformar em excelente negócio, capaz de atender não apenas às demandas locais do produto, mas também proporcionar a melhoria da qualidade de vida das pessoas que se envolvem com a atividade, criar alternativas de mercado, fortalecer o desenvolvimento socioeconômico da região e garantir o atendimento às necessidades atuais e futuras das gerações.

A farinha é tradição na mesa do brasileiro. Apesar disso, só recentemente passou a ser enquadrada definitivamente como alimento, passando a compor a cesta básica. A partir de então, as dependências das casas de farinha, artesanais ou industriais, bem como seu processo de fabricação, devem cumprir as exigências das Boas Práticas de Fabricação da Farinha. Tais práticas envolvem desde detalhes na construção do prédio que abrigará a casa de farinha até os cuidados com o processo. Em outras palavras, são orientações e recomendações que possibilitarão a melhoria da qualidade do produto, resultando em maior produtividade, melhoria no padrão de vida dos trabalhadores e maior proteção ao meio ambiente.


A mandioca é cultivada pelos índios a milhares de anos. Até hoje faz parte da realidade social, econômica e cultural do Brasil, principalmente da região Nordeste. Pode-se dizer que a mandioca afirmou-se como instituição cultural da sociedade crisopolense, já que ela está presente no trabalho (roça, casa de farinha, feiras livres, mercados) com suas técnicas de produção, seja primitivas ou mecanizadas; como produto indispensável na culinária; e através de diversos fatos ou manifestações do nosso rico folclore.

Existem mais de cem espécies de mandioca. Em Crisópolis as mais encontradas são: aramaris, kiriris, cravela (caravela), sutinga, pilha, roxinha, jacobina, babuzinha, Maria pau, mangue, cria menino, aipim preto, aipim rosa, escondida, itapicuripe, saco nas costas, etc. Quase todas contendo ácido cianídrico conhecido populamente como manipueira (do tupi: sujeira da mandioca). As espécies que não possuem a manipueira são chamadas de macaxeira ou aipim.

Tudo da mandioca se aproveita, a goma (cola), as folhas, ricas em proteínas, servem de ração para o gado e para fazer um pratos típicos Baianos: a maniçoba, a tapioca, que também servem para a produção de bolos, beijus, cuscuz e diversos outros pratos tipicamente baianos. A casca é alimento para os porcos, gado etc. Até a venenosa manipueira, depois de 30 dias num tanque, se torna um excelente adubo para o controle de pragas (formigas e lagartas).

O Plantio

A mandioca é uma planta que alcança uma altura de um a no máximo três metros. Seu fruto (raiz) é ramificado em cinco partes. O vegetal é cultivado em praticamente todos os municípios Baianos, seja nas roças ou até mesmo nas margens das rodovias e em terrenos das áreas urbanas.

O plantio da mandioca acontece geralmente no inverno, o período chuvoso. Mas a planta possui capacidade de se desenvolver em grandes variações climáticas e pluviométricas: temperaturas diversas, que vão de 13 a 32º C. Suporta de 600 a 2500 mm de chuvas anuais.

O roceiro pode plantar a mandioca usando enxada, cavando um buraco de um palmo e meio ou em leras (covas). Ele não precisa comprar sementes, já que a semente da mandioca é a “maniba” (maniva ou manaíba), ou seja, os próprios talos ou caules da planta, que são separados previamente e cobertos com terra, ficando assim de quinze a vinte dias, o período apropriado para ser plantado. A maniba é cortada em pedaços de aproximadamente dez centímetros, a cova é aberta e a maniba é semeada com o “olho” para cima, sendo colocada terra em seguida. O terreno é fertilizado com estrume de gado e mamona. A colheita se faz de seis meses a um ano e meio após o plantio. Assim é possível colher mandioca a qualquer tempo.

Vantagens da Mandioca


A mandioca não tem tempo, pode ser colhida em qualquer momento depois de seis meses de plantada, pois pode ficar na roça crescendo por até três anos, sem que apodreça. Não é preciso comprar sementes. A plantação é feita com os próprios talos da planta. Possui grande resistência a doenças e pragas. O não uso de agrotóxicos e pesticidas torna bastante saudáveis os alimentos derivados da mandioca.

O pequeno produtor não deixa de plantar mandioca e fazer farinha. O produto tem um bom valor de mercado. E mesmo quando ele não vende, consome em casa com a família. O Crisopolense consome muita farinha. Cerca de 80% da produção de mandioca é para o consumo humano, vendida na forma de farinha nas feiras, armazéns e supermercados.

Da Roça para a Casa de Farinha


Quando a terra encontra-se úmida a mandioca é arrancada com as mãos, quando está seca a colheita é realizada com o auxílio de uma enxada, sempre puxando as raízes com o cuidado de não quebrá-las. As raízes são quebradas e colocadas na “ruma” (no amontoado) e daí, transportadas para a casa de farinha em cestos nas cabeças das mulheres, em carrinhos de mão ou em burros nos caçuás.

A colheita pode ser parcial, de uma parte da roça, ou em “desmancha”, a mandioca colhida totalmente. Seja como for a colheita é realizada quase sempre na lua nova ou cheia. O roceiro acredita que nesses períodos a mandioca renda mais farinha.

As pragas mais comuns que atingem a mandioca são a lagarta e a formiga, que são combatidas com a manipueira extraída das raízes.

Os equipamentos utilizados na colheita da mandioca são as ferramentas: enxada, foice e facas; e os cestos e caçuás de pindoba.

A Farinhada

O trabalho de produção de farinha começa cedo, ao nascer do sol, se prolongando até o entardecer. Tem início com o descascar das raízes. Usando uma faca amolada, uma pessoa raspa a cabeça da mandioca e uma outra, o restante do corpo da raiz. Este método é usado para não suja-la. Em algumas casas de farinha uma só pessoa descasca a mandioca por inteiro. Em seguida toda a mandioca descascada é lavada em tachos ou baldes de água e colocada em cestos.

Na atualidade a maior parte das casas de farinha é mecanizada, mas no passado não muito distante e em comunidades aonde a energia elétrica ainda não chegou, o trabalho de produção de farinha ainda é manual.

Depois de descascada, a mandioca é ralada, seja em um rodete com motor elétrico ou na bolandeira, que consiste numa grande roda de madeira com manivela movimentada por um homem forte (o puxador), cuja correia faz girar velozmente o rodete, uma bola dentada dentro de uma caixa de madeira. Uma mulher (a cevadeira) segura habilmente a raiz pela ponta e a rala no rodete.

Depois de ralada ou “cevada” a mandioca transforma-se numa massa úmida que é levada à prensa para secar e ser retirada a manipueira. A prensa tem forma de gamela com furos no fundo e pregada em um mourão ou bando de madeira. A massa da mandioca é molhada e embalada em palhas ou em panos de saco e colocada na prensa em várias camadas. Sempre que é espremida, dela escorre o líquido amarelado (o ácido venenoso) juntamente com a tapioca, que é a fécula ou amido da mandioca. Quanto mais a massa é pressionada mais ela enxuga. Quando a massa fica completamente seca transforma-se em torrões, que são desmanchados. A massa seca é levada para grandes peneiras. A massa fina que vai sendo peneirada é acumulada em uma caixa de madeira, enquanto a crueira (pequenos pedaços de mandioca que não foram ralados) fica na peneira. A crueira serve de alimento para porcos e galinhas ou ainda como adubo orgânico na própria roça de mandioca.

A massa peneirada deve ir para o forno no mesmo dia para poder dar farinha boa. Se a massa for deixada “para dormir” a farinha azeda. O forno à lenha já deve está quente, no ponto de fazer farinha. Quanto mais o forno quente mais a farinha é grossa.

Existem fornos elétricos que, através de paletas móveis, mexem a massa automaticamente até torra-la e transforma-la em farinha. Na falta daquele aparelho, a massa é mexida por uma pessoa portando um rodo de madeira. Um trabalho duro que exige muita resistência física, pois o tempo de a farinha ficar torrada, no ponto é de uma hora e maia a duas.. Sem falar no grande calor produzido pelo forno movido à lenha, feito de alvenaria.

A farinha está pronta, quando colocada entre os dedos, cai facilmente. É ensacada ainda quente para ser comercializada.

Os instrumentos de trabalho da farinhada, além dos equipamentos da casa de farinha, são: facas, panos, caçuás, cestos, coxos, rodos, urupemas (peneiras), gamelas ou baldes, vassouras e caixas de medir farinha.

A Mandioca na Culinária Baiana

São muitas as utilidades da mandioca na culinária baiana e nordestina. Seus sub-produtos são preparados e consumidos por todos os seguimentos da sociedade. A farinha de mandioca é praticamente onipresente na mesa dos baianos. É consumida como acompanhamento ou ingrediente de diversos tipos de preparos culinários. Nos lares de baixa renda a farinha não é simplesmente complemento, mas alimento essencial. É comida com pedaços de carne de boi, de porco, carneiro, galinha ou peixe. Carnes essas, assadas, fritas ou cozidas. Misturada com feijão. É também consumida com alimentos doces como o mel, rapadura, frutas (manga, laranja, jaca, banana, etc.) e doces de goiaba e de banana.

Pirões


O preparo do pirão é de origem indígena. Os tupis escaldavam a farinha no caldo de peixe cozido até se transformar numa massa gelatinosa. O termo “pirão” vem de PIRA (peixe). Faz-se pirão com caldos de carne de boi cozida com verduras, com ganhamuns, caranguejos, siris, capão, leite e ovos.

Farofas


Existem várias maneiras e ingredientes para o preparo de farofas (ou farofias). Mistura-se a farinha de mandioca com manteiga e cebola; com dendê ou com óleo de frituras; com caldos de carne; com água morna cebola roxa e coentro (farofa d’água); com ovos cozidos amassados no garfo, sal e manteiga. A paçoca é feita com carne seca ou do sol socada no pilão com farinha e cebola roxa.

Macaxeira


A macaxeira é a mandioca mansa (não venenosa). Portanto pode ser consumida simplesmente cozida com água e sal ou frita na manteiga, em qualquer uma das refeições. Sendo muito apreciada acompanhando carne do sol ou queijo de coalho.

Ainda é encontrado nas feiras livres do interior sergipano o bolo de macaxeira assado em fornos de lenha e vendidos em tabuleiros ou formas rasas e cortado em pedaços retangular.



Bolos e Pudim


O bolo de macaxeira é feito com a raiz ralada, misturada com leite de coco, açúcar, sal e manteiga. Batida em uma tigela com colher de pau até misturar bem. Em seguida a massa é levada ao forno em uma forma untada com manteiga e colocado um pouco de leite de coco por cima.

O bolo de massa puba (tapioca úmida e fermentada): mistura-se a puba com leite de coco, uma colher grande de manteiga, uma pitada de sal, uma xícara de açúcar e cravos socados a gosto. Assando no mesmo procedimento do bolo de macaxeira.

O pudim de mandioca: bater no liquidificador dois copos (americanos) de mandioca cozida (sem sal) amassada, dois copos de açúcar, dois copos de leite, quatro ovos, duas colheres de sopa de coco ralado e erva doce a gosto. Derramar em uma forma de pudim caramelizada e assar no forno.

Mingaus


São produzidos da tapioca e da massa puba. Uma quanto a outra pode ser diluída com leite de vaca ou de coco e cozida com açúcar ou mel e canela a gosto. É costume de muitos comer mingau de puba acompanhado de migalhas de pão ou cubinhos de queijo.

Beiju e Pé-de-Moleque


O beiju era o pão dos índios brasileiros. Os primeiros habitantes da nossa terra faziam diversos tipos de beiju. Quase sempre na forma redonda e achatada. Na atualidade o beiju é alimento muito apreciado, seja na mesa pobre do roceiro, nas feiras livres, nos restaurantes de comidas típicas ou nas praças.

O beiju é preparado com tapioca seca assada na frigideira. É ingerido acompanhado com manteiga, coco ralado, queijo, e até goiabada. O beiju molhado é feito a frio, com açúcar e leite de coco e servido em folha de bananeira.

O pé-de-moleque é um doce de massa puba misturada com coco ralado, açúcar, cravos triturados e sal. A mistura é assada no forno envolta em palha de bananeira.

Poesia Popular


Em algumas comunidades que ainda produzem farinha e outros derivados da mandioca de maneira rudimentar, usando-se técnicas manuais, algumas trovas são conhecidas e declamadas ou cantadas durante o trabalho. Essas trovas eram chamadas no passado de “aboio da farinhada”.

Eu queria ser mandioca
De sutinga verdadeira
Pra andar de mão em mão
E no colo da cevadeira.

Adeus casa de farinha
Adeus banco de relá mandioca
Adeus morena bonita
Que mim dava tapioca.

Eu queria ser mandioca
De mandioca macaxeira
Pra andar de mão em mão
E no colo da cevadeira.

Advinhas


Vários estudiosos do folclore baiano coletaram muitas advinhas envolvendo a cultura da mandioca. Vejamos algumas delas. O que é, o que é?

1 - Branquinha, branquinho, reviradinho? - Beiju!

2 - Carneirinho de beira-mata que o leite mata? - Mandioca!

3 - Preta por fora, branca por dentro? - Macaxeira!

4 - Anda, anda e não sai do lugar? - Rodete de casa de farinha!

5 - Tapí passou por aqui e fez oca? - Tapioca!

Talvez pelo fato de a raiz da mandioca ter alguma aparência com o órgão sexual masculino e a mesma ser manuseada por mulheres, o imaginário popular estimulado pela malícia criou várias advinhas de duplo sentido com conteúdo pornográfico:

6 - Bota sã, sai podre, depois fedendo e pingando? - Mandioca de molho!

7 - Minha mãe de pernas pra cima, meu pai escanchado em cima e minha mãe mijando em baixo? - Massa de mandioca na prensa!

A qualidade da Farinha 


A farinha de Crisópolis é considerada pelos comerciantes e consumidores de fora como um dos produtos de melhor qualidade produzida na região do agreste baiano.

Conhecendo o Cultivo da Mandioca e a Produção da Farinha

Colheita 

A mandioca pode ser colhida com 1 ou 2 ciclos de cultivo. O pedúnculo, ou pequenos caules remanescentes, devem ser eliminados, pois sua presença dificulta o descascamento e aumenta o teor de fibra no material. 

O transporte deve ser feito no período máximo de 24 horas após a colheita, pois, a partir daí, já começam os ataques de microrganismos, principalmente fungos.

Recepção das raízes 


O processamento se inicia com a recepção e pesagem das cargas de raízes de mandioca. Posteriormente, as raízes devem ser descarregadas em local coberto, porém arejado, preferencialmente com piso impermeabilizado, de modo a evitar a contaminação das raízes por fungos e bactérias. É importante destacar também a necessidade de proceder à pesagem e armazenamento ao abrigo do calor e umidade. Controlar a entrada da matéria-prima é fundamental para que os custos do processo sejam otimizados e bem aproveitados, assim como seu adequado armazenamento evita perdas por apodrecimento ou umidade em excesso.

Descascamento 


O descascamento das raízes pode ser feito mecanicamente, através do lavador-descascador, que possibilita simultaneamente a lavagem com fluxo contínuo de água e o descascamento das raízes. Manualmente, o descascamento deve ser feito, preferencialmente, com o raspador manual em vez de faca, com luva de malha de aço para evitar cortes nas mãos.

Nesta etapa, os cuidados com a higiene são fundamentais para que as bactérias não iniciem seu processo de proliferação. As cascas devem ser eliminadas da área de trabalho para evitar o aparecimento de moscas e outros insetos indesejáveis.

Com o descascamento das raízes, é produzido resíduo sólido (cascas) que, se empilhado ao ar livre e receber água de chuva, ocasionará a produção de manipueira. Essa substância é tóxica ao ambiente, podendo provocar alteração físico-química do solo, exalando cheiro desagradável, atraindo roedores e insetos. Portanto, recomenda-se que as cascas, antes da destinação final, sejam secas ao sol e permaneçam armazenadas em locais cobertos, ou mesmo sejam destinadas à alimentação animal. 

● A lavagem e o descascamento bem feitos resultam na obtenção de farinha de melhor qualidade; 

● Um adulto descasca, em média, 250kg de raízes de mandioca em 8 horas de trabalho.

Lavagem 


Concluído o descascamento manual, é necessário fazer uma lavagem para remoção de cascas ou impurezas remanescentes. Após a lavagem, as raízes limpas devem ser imersas em solução 0,5% de água clorada, o que dificultará o surgimento de bactérias e fungos contaminantes.

A área de lavagem da mandioca deve possuir ralos de escoamento para drenagem da água e, tanto piso como paredes, devem ser revestidos de material impermeável. Adicionalmente, para a proteção do trabalhador, essa operação deve ser efetuada com calçado impermeável. 

A água residual do processo de lavagem, por sua vez, resulta em um efluente líquido com presença de manipueira, que deverá ser separado da rede de drenagem destinada à recuperação do amido em tanques de sedimentação. 

Trituração/Ralação 


Esta etapa consiste na transformação das raízes em massa. As raízes limpas devem ser levadas para o triturador (ralador), constituído por cilindros providos de lâminas serrilhadas, fixadas paralelamente entre si. As raízes são empurradas em direção ao cilindro por meio de braços de madeira em movimentos alternados, a fim de produzir uma raspa fina.

Exemplos de trituradores de mandioca. A. ralador tradicional; B. máquina composta de uma sequência de raladores acoplada a um tanque de armazenamento da massa produzida; C. ralador moderno 

● A manutenção das serras é indispensável para a homogeneização da massa, definição da granulometria e aumento do rendimento do produto. 

● As máquinas de triturar devem ter proteções com a finalidade de impedir o acesso das mãos e braços, evitando ferimentos, esmagamentos e amputações. 

● Próximo ao triturador, deverá existir uma plataforma para que o trabalhador consiga despejar, com menor esforço físico, o conteúdo a ser triturado. 

A massa produzida deve ser armazenada, temporariamente, em um tanque de alvenaria, azulejado, evitando que resíduos fiquem aderidos às paredes do tanque. A área de lavagem deve possuir ralos de escoamento para drenagem da água e, tanto piso como paredes, devem ser azulejados permitindo o escoamento da manipueira que deverá ser canalizada e direcionada para tanques onde será decantada. 

Prensagem 


A raspa da mandioca, com 65% de umidade, em média, é embalada em sacos de ráfia que, posteriormente, são sobrepostos até o limite da prensa. Após a prensagem, a raspa perde em torno de 20% da umidade e atinge o ponto ideal para ser submetida à torração. 

Historicamente, esta etapa é realizada com prensas artesanais, como o tipiti indígena, ou construídas em madeira, mas, atualmente, já existem prensas hidráulicas, que retiram grande parte da manipueira da massa, de forma prática e com baixo esforço físico. Em decorrência do aumento do volume de produção de farinha, as prensas artesanais devem ser substituídas por equipamentos elétricos, com pistão hidráulico, que eliminam o emprego da força física, preservando o trabalhador e, ao mesmo tempo, tornando a extração mais eficiente.

Nesta etapa ocorre a maior produção de manipueira, devendo ser drenada para os tanques de recuperação de amido e posterior tratamento nos tanques de sedimentação. A água extraída nesta operação é rica em amido, não devendo ser misturada às outras águas residuais da lavagem. 

Esfarelamento da raspa ralada 


Ao sair da prensa, a raspa apresenta-se na forma de blocos compactos. Por isso, antes do escaldamento, deve-se efetuar o esfarelamento por processo mecânico ou manual. No caso de ser mecânico, utiliza-se peneira vibratória com motor elétrico, opção que melhora a eficiência do processo, a rentabilidade da matéria-prima e a otimização dos custos, além de elevar a qualidade do produto. 

Manualmente, o esfarelamento é feito pela passagem repetida de um rodo sobre a massa prensada colocada sobre a peneira, que precisa ser limpa periodicamente com escovas para que não haja acúmulo de crostas de massa causando fermentação. 

Nesta etapa é fundamental a separação de frações grosseiras, pedaços de raízes e cascas que não foram trituradas completamente, de modo a garantir a produção de farinhas mais finas. 

● Essas frações grosseiras, chamadas de crueira crua, podem ser utilizadas na alimentação de animais; 

● O crivo ou malha da peneira vai determinar a granulometria da farinha.

Torração 


A massa esfarelada deve ser levada ao forno até ficar bastante seca, apresentando aspecto crocante. Na maioria das casas de farinha, essa operação é realizada em 30 minutos, com o forneiro mexendo a massa com o auxílio de um rodo de madeira, de cabo longo e liso, até a secagem final da farinha, em torno de 13% de umidade. Com a perda de umidade e secamento promovido pela torração, ocorre também o clareamento da massa. 

Na produção artesanal de farinha Brasil afora, os fornos são construídos dentro ou até mesmo do lado de fora da casa de farinha.

A produção comercial atual requer normas de higiene e de controle de qualidade, determinando que, para a torração da farinha, os fornos sejam construídos no interior da casa de farinha e distantes das aberturas, como porta e janelas, para evitar que a fumaça polua o ambiente interno. Adicionalmente, deverá ser instalada uma portinhola na boca de alimentação do fogo para impedir a saída da fumaça, que será conduzida através de chaminé.

A altura da base inferior da boca dos fornos deve ser de, pelo menos, 40cm de altura em relação ao chão. A base da caixa de abertura (boca dos fornos) deve possuir um plano inclinado para dentro de, aproximadamente, 30 graus, para impedir que as cinzas sejam jogadas para fora do forno durante a sua utilização. 

Esta etapa é fundamental para eliminar a última fração de manipueira que possa causar sabor amargo à farinha. Por isso, é considerada a operação mais delicada e a que mais influencia na qualidade do produto final. A cor, o sabor e a conservação durante o transporte e o armazenamento dependem desta fase de processamento. 

Peneiramento 


Durante o resfriamento da farinha, acontece a formação de grumos devido à gomagem da fécula. Por isso, esta etapa tem a finalidade de dar uniformidade à granulometria da farinha. A malha da peneira será determinada pelo tamanho dos grãos que se quer obter. É importante ressaltar que, nesta etapa, há grande quantidade de partículas em suspensão (poeiras), motivo pelo qual os trabalhadores devem utilizar máscaras respiratórias. Ao final do peneiramento, a produção é dividida em diferentes tipos, como farinhas grossas e finas. 

O peneiramento pode ser feito por processo mecânico ou manual, semelhante à etapa de esfarelamento.

Ensacamento 


Concluído o peneiramento, a farinha é resfriada em temperatura ambiente, tomando-se cuidado para distribuí-las em camadas finas e com revolvimento periódico. 

Antes do ensacamento, a farinha deve ser classificada conforme a demanda do mercado consumidor. Para isso, existem conjuntos de peneiras de diferentes tamanhos de malha. Durante a classificação, o movimento da peneira gera grande quantidade de pó, sendo indispensável o uso de equipamento de proteção respiratória. A farinha poderá ser acondicionada em sacos de 50 kg, quando se destina à venda por atacado, e de 0,5 kg ou 1 kg para venda no varejo, sendo recomendado o uso de saco de plástico ou de papel kraft. O acondicionamento em sacos de 50 kg pode ser mecânico e o fechamento com costuradeira elétrica, ou mesmo enchimento e costura manual.

Armazenamento 


Os sacos contendo farinha devem ser armazenados em locais secos e ventilados e permanecerem sobre estrados ou grades de madeira com espaço entre as embalagens. A área deve ter pisos e paredes laváveis, teto de laje ou PVC e cobertura de telha. 

Nota importante 


Vários fatores de qualidade e ambientais estão envolvidos na produção da farinha, devendo-se, antes da produção, obedecer às normativas ambientais e sanitárias da legislação brasileira, sobretudo da ANVISA e do MAPA.

3. Normas para instalações da casa de farinha 


O pé direito do prédio deve ser superior a 4 metros para facilitar a boa ventilação. Por meio de uma captação, o ar quente deve ser conduzido para fora do prédio. O ar ambiente precisa ser renovado continuamente, de maneira natural ou forçada, porém preservando as telas das aberturas. 






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